sábado, 16 de maio de 2026

A desordem da Marechal Deodoro

 

Sou um órfão da feira livre feirense. Guardo na memória os tempos em que vinha da roça, às segundas-feiras, acompanhando minha mãe a pechinchar, com seu bocapiu, entre as rumas de mercadorias numa das mais afamadas feiras do país. Se "Paris bem vale uma missa" (Paris vaut bien une messe), como disse Henrique IV para ser coroado rei da França, a banana-real e um refrigerante na lanchonete da Galeria Caroá bem valiam a correria das ruas com ela. Quando retornei da minha formação acadêmica, no final dos anos oitenta, a grande feira já tinha sido extinta, em janeiro de 1977.

Desde então, passo diariamente pela Avenida Marechal Deodoro — antiga Rua do Meio, que já abrigou até estádio de futebol. O saudoso jornalista Adilson Simas costumava dizer que a Marechal era o "rabo da lagartixa", a herança da feira livre que permaneceu. Nesses quase quarenta anos em que circulo por ela indo para o trabalho, marcando o começo e o fim do meu dia, enxergo uma via que nunca deixou de ser desarrumada e visualmente hostil. O calçamento mudou, mas o canteiro central, planejado para ter árvores, teve o jardim arrancado e acabou coberto com tijolos intertravados.


Acima do chão, o pandemônio de fios, sem ordem e sem lei, enche o céu de feiura — há pouco tempo, um carro incendiou-se após um curto-circuito na rede. Nas calçadas, a feira resiste em barracas improvisadas, onde os feirantes seguem sua dura labuta, ganhando o pão entre o suor e a desordem. As estruturas prometidas para organizar o comércio — atrasadas há décadas — aguardam a liberação efetiva.

Não escrevo, de forma alguma, contra a existência de feiras. Elas existem nas maiores e mais famosas cidades do mundo e dão um ar de humanidade ao frio do espaço urbano. O que as outras têm, e que nos falta, é o ordenamento e, acima de tudo, a higiene. Quando saio à noite, a rua está cheia de restos de lixo; quando retorno pela manhã, o lixo acumulado e a falta de asseio adequado permanecem lá. É difícil crer que alguém fiscalize o trabalho da empresa de limpeza urbana: o serviço é ligeiro, superficial e descuidado, o que só serve para degradar o ambiente e afastar clientes.

O cenário é incompatível com o centro da segunda maior cidade do estado e expõe a lentidão de intervenção do poder público. Afinal, quatro décadas é tempo demais para se mudar a cara de uma única rua. É evidente que a Marechal precisa de uma revisão completa no trânsito, na fiação aérea e na padronização das barracas, além de treinamento para os feirantes. Contudo, este texto é apenas para cobrar o elementar: limpeza, limpeza e limpeza. Um direito que os trabalhadores da feira merecem e que o respeito urbano aos cidadãos exige.

Nenhum comentário: