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| Elis Regina teria completado 81 anos no último dia 17 de março. É, sem dúvida, a maior voz da história da Música Popular Brasileira - Foto: rama/Divulgação |
Elis Regina tinha uma voz emocionante, potente, rasgada, visceral, que não cabia naquele corpo franzino de um metro e meio de altura (1,53m). E na semana do aniversário dela, que faria 81 anos, a gente faz uma homenagem à cantora inigualável que lançou alguns dos maiores compositores da história da MPB. E não foram poucos.
Foi Elis quem deu visibilidade a verdadeiras referências da nossa música, que até então eram desconhecidas, como Milton Nascimento, João Bosco, Audir Blanc, Gilberto Gil, Belchior, Ivan Lins, Renato Teixeira, Sueli Costa e Fagner, entre outros.
Sim, ela tinha um ouvido apurado, faro musical e era ousada. Mesmo no auge do sucesso, Elis dava oportunidade, ela queria gravar gente nova. E conseguiu com maestria, emplacando sucessos que atravessam gerações e tocam até hoje. Mais do que gravar de forma impecável, ela tinha uma interpretação que mudava, transformava o sentido da letra das músicas, a ponto de ninguém mais querer gravar a mesma canção. Ela era imbatível.
Perseguida pela ditadura
Elis teria completado 81 anos no último dia 17 de março. Ela morreu muito jovem, aos 36 anos, em 1982, devido a uma parada cardíaca provocada por uma combinação de álcool, cocaína e remédios tranquilizantes, segundo o laudo médico da época.
Mulher livre, sem papas na língua, Elis Regina foi perseguida e vigiada pela ditadura militar brasileira (1964-1985) depois que chamou os governantes brasileiros de “gorilas” em uma entrevista que deu na Europa.
Depois disso ela passou a ser monitorada por militares na casa da família e no estúdio. Recebeu ameaças e foi forçada a participar de eventos dos militares. Eles usaram essa imagem dela para dizer que Elis apoiava ao regime, uma fake News da época. Elis era resistência e estava engajada na luta pela anistia e pela democracia.
Deu nome de Rita Lee para a filha
Ela era tão surpreendente que, mesmo sabendo dos riscos, foi visitar a amiga Rita Lee na cadeia. Rita estava grávida quando foi presa pelo regime militar, em 1976, e Elis, mais do que visitar a amiga ameaçou chamar a imprensa para mostrar as condições da cadeia e garantir que Rita fosse libertada.
Nascia ali uma amizade linda, que rendeu parcerias musicais e uma homenagem para o resto da vida.
Elis Regina deu à filha, que teve com Cesar Camargo Mariano, o nome de Maria Rita, para homenagear a amiga.
Amores e parcerias musicais
Elis Regina teve dois casamentos marcantes na MPB. Primeiro com o produtor Ronaldo Bôscoli (1967-1972), com quem teve o filho João Marcelo Bôscoli.
Depois se casou com o pianista César Camargo Mariano (1973-1981), pai de Pedro Mariano e Maria Rita.
Foram dois casamentos intensos, na vida pessoal e também nas parcerias musicais. E Elis sofreu muito quando se separou de Cesar Camargo Mariano. E ela não escondia isso. As imagens dela chorando ao cantar Atrás da Porta, de Chico Buarque e Francis Hime, mostram como era uma mulher intensa. Ela morreu no ano seguinte da separação com César Camargo Mariano.
O nascimento da estrela
Gaúcha de Porto Alegre, Elis nasceu em 1945 e começou cedo na música. Com apenas 7 anos ela já cantava em programas de rádio. Quando fez 13, foi contratada pela Rádio Gaúcha, e virou a “estrelinha da emissora”.
Quando tinha por volta de 15 anos, no início dos anos 1960, ela foi para o Rio de Janeiro gravar os primeiros discos, mas queriam transformar Elis em cantora pop e não deu certo. Ela ficou desiludida e voltou para Porto Alegre. Quatro anos depois, voltou para o Rio, e depois se apresentou em São Paulo, onde tudo mudou.
Elis Regina ganhou projeção nacional quando se apresentou no programa “O Fino da Bossa”, na TV Record, ao lado de Jair Rodrigues, outro gigante da voz. E a carreira brilhante teve um sucesso após o outro.
Brilhou no exterior
Elis deixou uma obra tão genuína que ecoa até hoje, mais de 40 anos depois da partida da maior voz da música popular brasileira.
E não foi só aqui. Elis brilhou no exterior também. Fez turnês pela Europa, gravou ao vivo no Festival de Jazz de Montreux, em 1979 e chamou a atenção de medalhões como Frank Sinatra.
A voz dela era tão impressionante, que Elis chegou a ser comparada a gigantes da música internacional como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Billie Holliday.
A relação com Milton Nascimento
Aqui no Brasil, além do clássico que gravou com Tom Jobim, Águas de Março, Elis tinha outra paixão musical; Milton Nascimento.
Ela dizia que “Se Deus tivesse voz, teria a voz de Milton Nascimento”.
E a admiração era mútua: Milton sempre disse que Elis é a musa inspiradora dele, tanto que escreveu várias composições para a amiga, que o projetou nacionalmente. Entre os grandes sucessos de Milton que ela gravou estão Travessia, Cais, e Nada Será Como Antes, Canção da América e Maria Maria.
Outros sucessos
De Adoniran Barbosa, ela gravou Tiro ao Álvaro, música que foi censurada pela ditadura por ter erros de português na letra, mas Elis gravou a versão original, do jeitinho que o Adoniran falava. E ficou perfeita!
De Ivan Lins, ela imortalizou Madalena. De Gilberto Gil, “Aquele Abraço” e “Se eu Quiser Falar com Deus”.
Outra que faz arrepiar é o Bêbado e a Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, um hino que protestava contra a ditadura e falava de exilados, “tanta gente que partiu num rabo de foguete”.
De Belchior ela gravou várias também, incluindo a música que todos lembram quando se fala de Elis: Como Nossos Pais.
Uma deusa da voz, sem dúvida alguma.
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| Elis Regina nasceu em Porto Alegre (RS) em 1945 e morreu em São Paulo, em 1982, aos 36 anos. Foto: divulgação |


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