Simplicidade emoldurou a sua existência de muito trabalho, amizade e respeito. Nunca perdeu o jeito sertanejo de não saber dizer não, procurando sempre fazer algo por alguém. A medicina foi uma das formas encontradas para fazer arte, assim como a literatura e a música. A arte, como um bem comum, iluminou sua trajetória, sem bifurcações. Viveu com a simplicidade que só os grandes conseguem.
Natural de Baixa Grande, município que faz parte da Chapada Diamantina, o médico Outran Sampaio Borges, embora não escondesse sua origem, filho do casal Gerson Miranda Borges e dona Aidê Santana Borges, escudava-se como "kalilandense", pois viveu a infância e a adolescência em uma época extremamente feliz na Kalilândia, parte leste da Cidade Princesa, que, embora chamada de bairro, hoje integra a área central dessa metrópole. Da Kalilândia praticamente nunca se afastou, prezando velhas amizades e ampliando-as através do esmerado trabalho como profissional da medicina e diretor do Hospital Dom Pedro de Alcântara, localizado na mesma área.
A Escola Dom Pedro II foi o início da sua vida escolar, em 1956, no então chamado Curso Primário, de importância fundamental, que foi concluído na Escola Nossa Senhora das Graças. Em 1960, ingressou no Colégio Santanópolis, um estabelecimento particular muito bem credenciado na Bahia. Todavia, terminou o curso ginasial em 1965, no Colégio Estadual de Feira de Santana, onde também fez o Curso Científico, concluído em 1968. Embora atento aos lampejos das artes, principalmente da música e da literatura, sempre foi vocacionado para a ciência médica e, assim, em 1969, com sucesso, prestou vestibular na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, em Salvador.
Especializado em Pediatria, desempenhou a atividade com dedicação e competência, sem perder a sua maneira simples e ordeira de atender, granjeando respeito e admiração na comunidade. Ocupou-se ainda da missão de preparar jovens que almejavam o ensino superior, ministrando cursos, em especial na área de Química, na qual se sobressaía pelos conhecimentos e pela forma que empregava para transmiti-los. Foi um dos fundadores da Unimed Feira, diretor-geral do Hospital Colônia Lopes Rodrigues (1995/2003) e provedor da Santa Casa de Misericórdia (2005/2013), contribuindo de forma efetiva para solver a forte crise econômica existente antes da sua gestão. Na provedoria, proporcionou a retomada desenvolvimentista no Hospital Dom Pedro de Alcântara, com a implantação da Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) e da Unidade de Alta Complexidade em Cardiologia. Em reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelo médico Outran Borges, atualmente a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) dessa unidade de saúde ostenta seu nome, o que se entende como uma justa e merecida homenagem.
O jeito simples nunca lhe faltou, como essência de um ser que veio para trabalhar e contribuir para o bem-estar dos seus semelhantes. Assim, seus passos sempre foram no sentido de humanizar o tratamento oferecido aos pacientes. Outran foi oficial médico do Hospital Geral do Exército, em Salvador, ali deixando a sua marca de trabalho e amizade.
Interessante é que, mesmo com suas atribuições profissionais, mantinha-se ligado aos movimentos culturais da cidade de forma efetiva, mas de maneira discreta. Compositor talentoso, produziu belas canções como Fole de Rei, Ilusão de Vaqueiro, Romaria e Cidadela, que foi interpretada por diversos artistas. Na literatura, transitando entre prosa e poesia, publicou: O Protonauta (1982), Cabeça de Frade (1986), Os Quatro Caminhos do Vento (1988), A Verdade, o Tempo e Outras Mentiras (2006) e As Velas do Meu Navio (2018). Também teve trabalhos inseridos em antologias poéticas e publicados em revistas e jornais da cidade.
Comenda Godofredo Filho (2001), Cidadão Feirense (2004) e Ordem Municipal do Mérito de Feira de Santana, títulos recebidos que provam o reconhecimento da sua presença na comunidade de Feira de Santana. Casado com a professora Gersonita Borges e pai de três filhos — Outran Júnior, Giordano Bruno e Thaís Borges —, o médico Outran Sampaio Borges escreveu sua história de vida sem manchas, com trabalho, amizade e respeito, falecendo nesta cidade aos 73 anos de idade, no dia 19 de novembro de 2022.
Por Zadir Marques Porto

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