Naquele
dia, engoli o orgulho e considerei que ela poderia ter razão.
O
tempo passou. Os anos correram e, como a memória do coração é falha,
recentemente me vi caindo na mesma armadilha mental. Voltei a me fechar em
copas, decidida a não mais procurar, ligar ou mandar mensagens para quem
parecia me responder com o vácuo. Mas a vida, essa professora severa, não
costuma pedir licença para aplicar seus exames mais difíceis. E a lição que
minha filha me deu anos atrás voltou hoje, sem dó nem anestesia, unindo dois
silêncios que eu jamais imaginei que pudessem se cruzar.
Até
pouco mais de um ano, eu trocava mensagens diárias pelo WhatsApp com o amigo
Beto Fernandes. De repente, a tela silenciou. O fluxo diário de palavras secou.
Insisti algumas vezes, mas, ferida em meu orgulho bobo, decidi parar. Cheguei a
vasculhar suas redes sociais atrás de alguma pista, um rastro que justificasse
aquela ausência abrupta. Nada encontrei.
Foi
exatamente nessa mesma época que o meu mundo particular também estava
conturbado. Meu companheiro, Cristóvam Aguiar, tinha perdido o restinho de luz
que ainda lhe permitia enxergar. Com a cegueira, veio a depressão — um monstro
silencioso que o levou pela mão para um lugar escuro e distante. Diante do
abismo dele, o meu próprio silêncio se fez por obrigação. Esqueci-me de quase
tudo e de todos para ser o seu cais, o seu guia, os seus olhos. Enclausurada na
minha própria dor e na missão de cuidar de quem eu amava, usei a minha
tempestade doméstica como justificativa para o meu afastamento e,
egoisticamente, julguei o afastamento do Beto.
Pensava
que, enquanto eu enfrentava o drama da escuridão do Cristóvam, o silêncio do
Beto era apenas indiferença. Mal sabia eu que, enquanto eu cuidava de uma mente
aprisionada pela depressão e pela falta de visão, o meu amigo Beto travava uma
batalha ainda mais silenciosa e devastadora para manter o controle do próprio
corpo.
Hoje,
graças a Deus, o vendaval em nossa casa passou. Cristóvam está bem, livre das
garras da depressão e aceitando com serenidade e resiliência a sua nova
condição visual. A tempestade dele encontrou a bonança. Mas foi justamente ao
respirar aliviada que a verdade dos fatos, com sua paciência cirúrgica, se
revelou por inteiro, mostrando que nem todo mundo consegue vencer seus monstros
no mesmo tempo que nós.
Hoje
pela manhã, enquanto a rotina começava ao som do programa Acorda Cidade, o rádio disparou um estilhaço que me deixou
sem chão. O âncora do programa, Dilton Coutinho, entrevistando a colega Lineia
Fernandes, trazia notícias da luta do querido radialista Beto Fernandes.
Descobri, da pior forma, o motivo do seu sumiço. Beto foi acometido por uma
doença neurodegenerativa rara e progressiva: a síndrome corticobasal. Uma
enfermidade cruel que rouba a autonomia, afeta a capacidade de se alimentar e,
em uma ironia dolorosa da vida, silencia a voz de quem passou a existência
comunicando-se verbalmente com o mundo.
O
choque foi imenso. Nós ainda estamos tentando digerir o peso dessa realidade.
Quem acompanha a carreira do Beto conhece a sua alma: um homem de generosidade
ímpar, cujo compromisso sempre foi dar voz à comunidade. Alguém que carregava
uma alegria de viver contagiante, traduzida naquele sorriso que nunca saía de
seu rosto.
Percebi,
com lágrimas escorrendo pela face, que enquanto eu mergulhava no escuro com o
Cristóvam e depois tateava o caminho de volta para a luz da superação, o Beto
perdia a sua voz para o mundo. Dois sofrimentos paralelos, isolados pelo
orgulho e pela distância que as redes sociais ironicamente criam.
Escrevo
estas linhas não para expor uma ferida, mas como um alerta urgente a todos nós
que insistimos em nos trancar no castelo do próprio ego. Quantas vezes nos
afastamos de familiares, amigos e colegas porque o nosso orgulho ferido diz que
"eles não se importam"? Que deixemos de lado o egoísmo e o
individualismo que nos isolam em bolhas de ressentimento. Procurem aqueles que
vocês amam, mesmo quando parecer que eles não estão dando atenção. A ausência
do outro quase nunca é sobre nós. A gente nunca sabe o tamanho do silêncio que
o próximo está engolindo, nem os motivos da dor que ele carrega.
Agora
que sei a verdade, o orgulho bobo deu lugar à urgência da solidariedade. A
família do Beto iniciou uma grande e necessária corrente do bem para ajudar a
custear o tratamento especializado, as terapias e os cuidados permanentes que a
doença exige. Amigos, ouvintes e colegas de profissão estão se mobilizando nas
redes sociais nessa campanha de apoio financeiro e afeto. É hora de nós, que
tanto recebemos de sua alegria, devolvermos um pouco desse amparo.
Para facilitar o apoio de quem deseja abraçar essa causa, foi disponibilizada uma chave Pix oficial gerenciada pela família. Você pode enviar qualquer quantia diretamente para: Chave Pix: [email protected]
Ao
meu querido amigo Beto, se as minhas palavras puderem de alguma forma ecoar no
seu coração, receba o meu abraço mais apertado. Você, que passou a vida inteira
emprestando sua voz para defender e alegrar a comunidade, nunca estará em
silêncio para nós. A sua força agora fala mais alto do que qualquer palavra, e
a nossa amizade e as nossas orações continuam exatamente onde pararam: bem
vivas, torcendo por você a cada novo amanhecer.
Força,
Beto! Jesus é contigo!
Por Maura Sérgia

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