quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O Silêncio e o Egoísmo que a Vida Cura

Certa feita, conversando com minha filha, expus a ela uma das minhas filosofias de gaveta: a lei da reciprocidade estrita. Eu dizia que só iria procurar quem me procurava. Se não me telefonavam, se não me visitavam ou se sequer mandavam uma mensagem, era sinal claro de desinteresse. Insistir em quem mal respondia, para mim, era flertar com o incômodo. Minha filha, com a sabedoria mansa que os filhos às vezes têm para desarmar os pais, me fez parar no meio do caminho. “E se essa pessoa estiver passando por algum problema?”, ela ponderou. “Alguma situação sobre a qual ela não pode ou não quer falar, mas em que um telefonema seu, uma mensagem boba, seja exatamente o que ela precisa para respirar?”

Naquele dia, engoli o orgulho e considerei que ela poderia ter razão.

O tempo passou. Os anos correram e, como a memória do coração é falha, recentemente me vi caindo na mesma armadilha mental. Voltei a me fechar em copas, decidida a não mais procurar, ligar ou mandar mensagens para quem parecia me responder com o vácuo. Mas a vida, essa professora severa, não costuma pedir licença para aplicar seus exames mais difíceis. E a lição que minha filha me deu anos atrás voltou hoje, sem dó nem anestesia, unindo dois silêncios que eu jamais imaginei que pudessem se cruzar.

Até pouco mais de um ano, eu trocava mensagens diárias pelo WhatsApp com o amigo Beto Fernandes. De repente, a tela silenciou. O fluxo diário de palavras secou. Insisti algumas vezes, mas, ferida em meu orgulho bobo, decidi parar. Cheguei a vasculhar suas redes sociais atrás de alguma pista, um rastro que justificasse aquela ausência abrupta. Nada encontrei.

Foi exatamente nessa mesma época que o meu mundo particular também estava conturbado. Meu companheiro, Cristóvam Aguiar, tinha perdido o restinho de luz que ainda lhe permitia enxergar. Com a cegueira, veio a depressão — um monstro silencioso que o levou pela mão para um lugar escuro e distante. Diante do abismo dele, o meu próprio silêncio se fez por obrigação. Esqueci-me de quase tudo e de todos para ser o seu cais, o seu guia, os seus olhos. Enclausurada na minha própria dor e na missão de cuidar de quem eu amava, usei a minha tempestade doméstica como justificativa para o meu afastamento e, egoisticamente, julguei o afastamento do Beto.

Pensava que, enquanto eu enfrentava o drama da escuridão do Cristóvam, o silêncio do Beto era apenas indiferença. Mal sabia eu que, enquanto eu cuidava de uma mente aprisionada pela depressão e pela falta de visão, o meu amigo Beto travava uma batalha ainda mais silenciosa e devastadora para manter o controle do próprio corpo.

Hoje, graças a Deus, o vendaval em nossa casa passou. Cristóvam está bem, livre das garras da depressão e aceitando com serenidade e resiliência a sua nova condição visual. A tempestade dele encontrou a bonança. Mas foi justamente ao respirar aliviada que a verdade dos fatos, com sua paciência cirúrgica, se revelou por inteiro, mostrando que nem todo mundo consegue vencer seus monstros no mesmo tempo que nós.

Hoje pela manhã, enquanto a rotina começava ao som do programa Acorda Cidade, o rádio disparou um estilhaço que me deixou sem chão. O âncora do programa, Dilton Coutinho, entrevistando a colega Lineia Fernandes, trazia notícias da luta do querido radialista Beto Fernandes. Descobri, da pior forma, o motivo do seu sumiço. Beto foi acometido por uma doença neurodegenerativa rara e progressiva: a síndrome corticobasal. Uma enfermidade cruel que rouba a autonomia, afeta a capacidade de se alimentar e, em uma ironia dolorosa da vida, silencia a voz de quem passou a existência comunicando-se verbalmente com o mundo.

O choque foi imenso. Nós ainda estamos tentando digerir o peso dessa realidade. Quem acompanha a carreira do Beto conhece a sua alma: um homem de generosidade ímpar, cujo compromisso sempre foi dar voz à comunidade. Alguém que carregava uma alegria de viver contagiante, traduzida naquele sorriso que nunca saía de seu rosto.

Percebi, com lágrimas escorrendo pela face, que enquanto eu mergulhava no escuro com o Cristóvam e depois tateava o caminho de volta para a luz da superação, o Beto perdia a sua voz para o mundo. Dois sofrimentos paralelos, isolados pelo orgulho e pela distância que as redes sociais ironicamente criam.

Escrevo estas linhas não para expor uma ferida, mas como um alerta urgente a todos nós que insistimos em nos trancar no castelo do próprio ego. Quantas vezes nos afastamos de familiares, amigos e colegas porque o nosso orgulho ferido diz que "eles não se importam"? Que deixemos de lado o egoísmo e o individualismo que nos isolam em bolhas de ressentimento. Procurem aqueles que vocês amam, mesmo quando parecer que eles não estão dando atenção. A ausência do outro quase nunca é sobre nós. A gente nunca sabe o tamanho do silêncio que o próximo está engolindo, nem os motivos da dor que ele carrega.

Agora que sei a verdade, o orgulho bobo deu lugar à urgência da solidariedade. A família do Beto iniciou uma grande e necessária corrente do bem para ajudar a custear o tratamento especializado, as terapias e os cuidados permanentes que a doença exige. Amigos, ouvintes e colegas de profissão estão se mobilizando nas redes sociais nessa campanha de apoio financeiro e afeto. É hora de nós, que tanto recebemos de sua alegria, devolvermos um pouco desse amparo.

Para facilitar o apoio de quem deseja abraçar essa causa, foi disponibilizada uma chave Pix oficial gerenciada pela família. Você pode enviar qualquer quantia diretamente para: Chave Pix: [email protected] 

Ao meu querido amigo Beto, se as minhas palavras puderem de alguma forma ecoar no seu coração, receba o meu abraço mais apertado. Você, que passou a vida inteira emprestando sua voz para defender e alegrar a comunidade, nunca estará em silêncio para nós. A sua força agora fala mais alto do que qualquer palavra, e a nossa amizade e as nossas orações continuam exatamente onde pararam: bem vivas, torcendo por você a cada novo amanhecer.

Força, Beto! Jesus é contigo!

Por Maura Sérgia

 

 

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