Enquanto
a maioria de nós deixa os minutos passarem anestesiados pela rotina, o
Cristóvam sempre estacionou o olhar. Ele possui aquela velha e nobre mania do
jornalismo raiz: a curiosidade sagrada pelas gentes e pelas esquinas. Mesmo
quando a sua visão começou a falhar, a sua mente teimava em não se apagar. Ele
criava as histórias na mente e as ditava para mim, transformando as minhas mãos
na extensão dos seus olhos e do seu talento. Juntos, escrevemos crônicas lindas
nascidas desse silêncio e dessa cumplicidade.
Hoje,
tendo perdido totalmente a visão, o entusiasmo para criar também se recolheu. O
silêncio da folha em branco agora dói de outro jeito. Mas essa pausa imposta
pelo tempo não anula — e jamais apagará — a sua trajetória brilhante. São quase
quatro décadas dedicadas ao jornalismo, editando com maestria jornais e
revistas, além do legado indelével de seus três livros de crônicas e artigos impressos: A
Levada da Égua, Sempre Livre e Mas, eu lhe disse... e dois ebooks: Tocando em Frente e Soltando as Amarras.
Escrever
sobre o cotidiano é um exercício de generosidade. É pegar o que parece banal e
devolver em forma de arte. Ver o Cristóvam fazer isso ao longo da vida é
testemunhar a nossa caminhada sendo eternizada. É por isso que este espaço onde
você lê esta homenagem se chama Sempre Livre: porque o espírito de um
escritor e a liberdade das suas palavras nunca perdem a visão.
Neste
Dia do Escritor, celebramos o homem, o jornalista e a obra. Parabéns, meu
querido Cristóvam. A sua luz continua guardada em cada página que você nos
deixou e em cada leitor que você transformou.

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