sábado, 25 de julho de 2026

A Vida Pelos Olhos de Quem Sabe Ver

 

Nota da Redação / Espaço da Autora: Hoje é o Dia do Escritor. Neste espaço, que tantas vezes ganhou vida através do olhar atento do jornalista Cristóvam Aguiar, não poderíamos deixar a data passar em branco. Esta crônica é uma homenagem pública ao homem com quem partilho a vida há 46 anos e que dedicou quase quatro décadas ao jornalismo e à literatura. Mais do que celebrar o autor de livros como "A Levada da Égua", "Sempre Livre" e "Mas eu lhe disse...", este texto é um registro de amor, cumplicidade e respeito por uma trajetória que se recusa a ser apagada pelo silêncio do tempo. Boa leitura.

Morar com um cronista é aprender a enxergar a poesia que se esconde no feijão que ferve no fogão, na vizinha que rega as plantas na calçada ou no barulho da chuva batendo na janela. Há exatamente 46 anos, partilho a vida, os dias e os cafés com o jornalista e escritor Cristóvam Aguiar. Nessa longa jornada comum, descobri que o verdadeiro cronista não inventa mundos; ele simplesmente sabe traduzir, com uma precisão cirúrgica e afetuosa, toda a vivência que colhe do cotidiano.

Enquanto a maioria de nós deixa os minutos passarem anestesiados pela rotina, o Cristóvam sempre estacionou o olhar. Ele possui aquela velha e nobre mania do jornalismo raiz: a curiosidade sagrada pelas gentes e pelas esquinas. Mesmo quando a sua visão começou a falhar, a sua mente teimava em não se apagar. Ele criava as histórias na mente e as ditava para mim, transformando as minhas mãos na extensão dos seus olhos e do seu talento. Juntos, escrevemos crônicas lindas nascidas desse silêncio e dessa cumplicidade.

Hoje, tendo perdido totalmente a visão, o entusiasmo para criar também se recolheu. O silêncio da folha em branco agora dói de outro jeito. Mas essa pausa imposta pelo tempo não anula — e jamais apagará — a sua trajetória brilhante. São quase quatro décadas dedicadas ao jornalismo, editando com maestria jornais e revistas, além do legado indelével de seus três livros de crônicas e artigos impressos: A Levada da Égua, Sempre Livre e Mas, eu lhe disse... e dois ebooks: Tocando em Frente e Soltando as Amarras.

Escrever sobre o cotidiano é um exercício de generosidade. É pegar o que parece banal e devolver em forma de arte. Ver o Cristóvam fazer isso ao longo da vida é testemunhar a nossa caminhada sendo eternizada. É por isso que este espaço onde você lê esta homenagem se chama Sempre Livre: porque o espírito de um escritor e a liberdade das suas palavras nunca perdem a visão.

Neste Dia do Escritor, celebramos o homem, o jornalista e a obra. Parabéns, meu querido Cristóvam. A sua luz continua guardada em cada página que você nos deixou e em cada leitor que você transformou.

 

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