segunda-feira, 27 de abril de 2026

Não se separem no frio

 Voltava, numa quinta-feira à noite, da reunião semanal na casa do poeta Antonio Brasileiro, quando percebi o vidro do carro embaçado. Só ali me dei conta de que Feira, cidade de dois climas, já estava assumindo sua "outra metade da laranja”.

A primeira metade vai de novembro a março, com corpos que transpiram reclamações e  certa irritação provocada pelo clima de deserto urbano. É um tempo que deixa no ar uma poeira permanente, capaz de recobrir, com facilidade, os móveis e os pulmões. A seca castiga as pastagens, escasseia a comida e aquece as aguadas que, suadas, evaporam. O sol é delicioso quando se tem os pés na areia do mar, não quando se labuta na rua enquanto ele esbofeteia a pele, drenando nossa energia vital.

Embora Feira seja uma grande varanda aberta às baforadas do oceano, a brisa marinha, da capital, só faz efeito nestas bandas ao cair da noite. Talvez os privilegiados que moram à beira do nosso lago sintam de forma diferente. É certo que nem sempre a estação — como a vida — apresenta-se tão bem definida; mas, este ano, as chuvas de março fecharam o verão dentro das regras, e a cidade, resfriada, já se move em outro ritmo.

Mesmo na casa do poeta o clima mudou. As discussões estão menos acirradas, e os poemas lidos falam de coisas vãs: nuvenzinhas inesperadas, passarinhos mensageiros e outros versos de algodão. O mundo segue incendiário,  mas a poesia puxa a rede, e o lirismo do sereno já se infiltra na alma dos autores. Até Deus deixou de ser debatido; ninguém duvida d'Ele sob o desamparo do frio.

No Centro, nota-se as pessoas andando devagar, golas mais altas, saias mais compridas e cabelos soltos — somos todos mais bonitos sob baixas temperaturas. As cafeterias estão mais cheias; eu mesmo reabri minha temporada de café esta manhã. Até a pechincha na feira livre já não rende tanta disputa.

Feira tem esse costume: dias quentes, mas noites em que a temperatura cai intensamente e o sereno, fino como uma anágua, recobre a madrugada, os carros e o horizonte. Nossa grande vantagem é que não se trata de frio excessivo — com as mazelas de tudo que é demasiado —, mas o bastante para nossa conversão.

Os abraços, observem, já demoram um pouco mais: todo "fiapo" de corpo é calor na alma. É assim porque o calor é conflito; o frio é paz. O calor é exuberância; o frio, comedimento. O calor nos tira a razão; o frio nos entrega de bandeja. O calor é sexo, imposição; o frio é amor, concessão. O calor é exigência; o frio é desejo. O calor afasta; o frio acolhe.

Pode parecer pouco, mas, nele, nossa alma passa a precisar da lareira que é o outro — e só isso já é um armistício. Não nego que prefiro esta temporada. Bebe-se vinho melhor, ama-se com mais pertencimento, e a cidade, mais leve, enfeita-se para dormir, disfarçando suas feiuras com o "véu de Santana".

Aliás, tive um motorista, o Moraes, que sempre me dizia: “– Homem não separa no inverno, não, doutor. Ficar sem uma "costela" nesse tempo?  O senhor não sabe, não?” A Rússia ensinou isso a Napoleão e seu Moraes, a mim. Despeço-me de vocês repassando o conselho: não se separem no tempo frio. Pode doer nos ossos!

Publicada no Tribuna Feirense

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