Uma eleição produz uma série de fenômenos que devem ser observados, independentemente de nossas preferências pessoais. A luz deve ser dirigida ao fato em si. Foi isso que aconteceu na eleição para deputado, quando nomes conhecidos da política brasileira perderam espaço para novas lideranças construídas, em grande medida, nas redes sociais.
O resultado impressiona. Nikolas Ferreira (PL-MG) alcançou 3.119.318 votos, tornando-se o deputado federal mais votado da história do país. Lucas Pavanato (PL-SP) chegou a 3.038.438 votos. Erika Hilton (PSOL-SP) obteve 1.596.472; André Fernandes (PL-CE), 684.372; Sâmia Bomfim (PSOL-SP), 583.107; e Julia Zanatta (PL-SC), 560.223. Em São Paulo, Eduarda Campopiano (PL-SP) foi a deputada estadual mais votada, com 1.956.238 votos.
Não se trata apenas de uma mudança de nomes, mas na maneira de fazer política. Temos uma nova geração de eleitores que se informa, discute política e escolhe seus representantes também a partir das redes sociais. Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas transformaram a comunicação política. O candidato já não depende, exclusivamente, da televisão, do palanque, do partido ou da estrutura tradicional de campanha. Ele pode falar diretamente com milhões de pessoas, todos os dias. E quem domina essa nova linguagem larga na frente.
Nikolas Ferreira é, talvez, o exemplo mais expressivo desse fenômeno. Antes desta eleição, ele já havia transformado um assunto político em acontecimento nacional. Em janeiro de 2025, seu vídeo sobre as mudanças na fiscalização do Pix alcançou quase 300 milhões de visualizações e provocou enorme repercussão política.
Mais recentemente, outro vídeo, no qual o deputado criticou a declaração de Lula sobre o exame de “toque em meninas”, explodiu. O presidente chamou Nikolas de “canalha” e “idiota”; Janja, com sua elegância habitual, de “piá de bosta”. O episódio ganhou repercussão e mostrou como a política passou a ser disputada, também, no ambiente digital.
É importante observar o mecanismo. Nas redes, a política deixou de ser apenas discurso e passou a ser, também, performance. A frase curta, o vídeo de poucos minutos, a provocação, a resposta imediata e a capacidade de gerar compartilhamentos podem produzir um alcance que nenhum comício tradicional consegue alcançar.
Isso não significa que as redes sociais expliquem, sozinhas, uma eleição. Ideologia, partidos, conjuntura econômica, rejeição, liderança e organização política continuam importantes. Mas é impossível compreender o resultado sem considerar esse novo ambiente de comunicação. A capacidade de transformar audiência em comunidade política e, depois, comunidade em votos tornou-se um dos ativos mais importantes da política contemporânea.
Pode-se gostar ou não de Nikolas Ferreira. Pode-se concordar ou discordar de suas ideias, linguagem e atuação política. Isto, porém, não elimina o fenômeno. Como todo fenômeno político, ele terá aspectos positivos e negativos. A única coisa que não é mais possível é ignorá-lo.
Uma nova geração chegou à política trazendo sua linguagem, seus códigos e sua maneira de disputar a atenção pública. A era dos piás chegou.

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