O calendário oficial diz que a primavera começa hoje, mas quem é do sertão sabe que o tempo por aqui tem outro relógio. Na nossa terra, a estação das flores não espera o fim de setembro para pedir licença; ela já vem batendo na porta desde o começo do mês, trazida pelo vento quente e pela luz viva que só o Nordeste tem.
Enquanto no papel o inverno ainda se despedia, o B-R-O-Bró, como se diz no Piauí, já mostrava as suas garras. Setembro entrou trazendo aquele calorão característico, com o mormaço da tarde que faz a gente procurar a sombra. Mas, junto com a quentura, veio também o milagre que só quem é daqui entende.
Muito antes de hoje, a caatinga já começava a mudar de roupa. O cinza dos galhos secos, que para os olhos de fora parece morte, começou a dar lugar à teimosia da vida. O ipê-amarelo e o catingueiro não qerem saber de folhinha oficial: explodem em cores logo nas primeiras semanas do mês, colorindo o topo dos morros e a beira dos caminhos feito fogueira acesa em dia de festa. Na cidade, as praças e avenidas também se colorem.
Até o mandacaru e o xiquexique parecem saudar o sol mais forte com um viço diferente. É a primavera do sertanejo, que não é feita de campos verdes e campos de tulipas, mas de uma resistência bonita, onde a flor brota do espinho e a vida se manifesta no calor mais brabo. Os pássaros, como o carcará e a asa-branca, também mudam o tom do canto, anunciando que a terra está acordada.
Por isso, o dia de hoje é só uma confirmação de algo que a gente já vinha vivendo na pele e nos olhos. A primavera no sertão não chega de mansinho; ela chega queimando, colorindo e provando que a beleza por aqui é forte, apressada e não espera ordens do calendário.


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