A presença da religiosidade no espaço público é uma característica legítima da sociedade, refletindo os valores e a identidade de milhões de cidadãos. No entanto, o cenário que se desenha nas campanhas para a Presidência da República ultrapassa o limite do debate de ideias e adentra o terreno perigoso da instrumentalização da fé. Transformar templos em palanques e dogmas em critérios de exclusão política é um desserviço tanto à democracia quanto às próprias tradições religiosas.
O aspecto mais alarmante dessa engrenagem é a proliferação deliberada de boatos e notícias falsas envolvendo questões de fé. Em período eleitoral, espalham-se rumores infundados sobre o fechamento de igrejas, a perseguição de lideranças ou a suposta "ameaça" que determinado candidato representaria aos valores sagrados. Essas narrativas mentirosas não nascem por acaso; são calculadas para inflamar o medo, anular a racionalidade do voto e demonizar o adversário. Trata-se de uma tática rasteira que joga cidadão contra cidadão.
Condenar esses boatos é um dever cívico e moral. A mentira travestida de zelo religioso corrompe o processo democrático, impedindo que o eleitor avalie propostas reais para a economia, saúde e educação. Além disso, rebaixa a espiritualidade a uma mera ferramenta de manipulação de massas, esvaziando seu sentido de acolhimento e ética.
O Estado é laico exatamente para garantir que todas as crenças — e a ausência delas — convivam em paz e igualdade de direitos. Quando a máquina de desinformação usa a religião para dividir o país, ela atenta contra a própria liberdade que finge defender. Para que o Brasil amadureça politicamente, é urgente rejeitar o voto pautado pelo pânico moral e pela mentira. A fé pertence à consciência de cada um; o voto deve pertencer ao debate sobre o futuro de todos.

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