sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O Algoritmo do Rancor e o Voto do Afeto: A Urgência de Pacificar a Política


O debate político contemporâneo abandonou as praças públicas e os palanques de madeira para se confinar em um território digital milimetricamente calculado. Por trás das telas de nossos celulares, engrenagens invisíveis ditam o ritmo e o tom da conversa pública. Não se trata de mera impressão: os algoritmos das redes sociais operam sob a lógica do engajamento extremo. A engenharia digital descobriu que nada retém mais a atenção do usuário do que a indignação, o medo e o conflito.

Nesse ecossistema, o feed de notícias se transforma em uma arena de linchamentos virtuais. Posts agressivos, apelativos e polarizadores ganham palanque prioritário e distribuição massiva, enquanto o diálogo ponderado e as propostas complexas são condenados ao ostracismo digital. O adversário político deixa de ser alguém que pensa diferente para se tornar um inimigo a ser sumariamente aniquilado através de um clique.
Essa engrenagem moderna nada mais é do que o velho mecanismo das paixões humanas amplificado pela tecnologia de ponta. No século XIX, o médico e político Adolfo Bezerra de Menezes já enfrentava as turbulências e os debates acirrados do Império e da Velha República. Se naquela época o insulto dependia do jornal impresso ou do grito na tribuna, hoje ele é pulverizado em segundos por cortes de vídeos editados, memes satíricos e desinformação programada para destruir reputações.
Bezerra de Menezes, que ficou conhecido pela sua integridade parlamentar e pela doçura inabalável no trato com correligionários e opositores, deixou-nos uma lição perene: o mal não se destrói com o mal. Alimentar a fúria das redes digitais com mais agressividade é o equivalente a tentar apagar um incêndio jogando gasolina. Quando combatemos o ódio com as armas do ódio, o único vencedor real é o próprio conflito, que se alimenta da nossa energia e agiganta o abismo entre nós.
A verdadeira resistência política e cidadã exige, portanto, uma profunda higiene digital e moral. Significa exercer a empatia e o respeito como atos de rebeldia contra o próprio algoritmo. Quando o sistema espera que o cidadão reaja com um comentário sarcástico, espalhe um boato ou compartilhe uma postagem que desumaniza o oponente, a força do amor ativo se manifesta na pausa, no discernimento e na recusa em ser massa de manobra.
Desarmar o celular e os palanques internos é o primeiro passo para pacificar o país. Votar com consciência e debater com dignidade não significa passividade ou omissão diante dos graves problemas estruturais da nossa sociedade; significa ter a coragem moral de defender ideias sem aniquilar quem está do outro lado. Afinal, por trás de cada avatar e de cada opinião divergente, existe um semelhante.
Quando o eleitor decide depositar na urna as suas esperanças, e não os seus ressentimentos, a política resgata a sua função mais nobre: a de instrumento de serviço e busca pelo bem comum. Diante da tela que incita à guerra digital, que a nossa escolha seja a da ponderação. Que sejamos capazes de provar que a luz da fraternidade e do respeito mútuo continua sendo o único antivírus eficaz contra o algoritmo do rancor.
Não apoiar nenhum dos projetos que se apresentam como opostos radicais é uma forma de protestar contra a própria estrutura que alimenta a divisão, uma maneira de dizer que a paz coletiva e o respeito recíproco valem mais do que as disputas de poder.

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