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| Nenhum posicionamento político vale o sacrifício da saúde mental e da paz de uma família |
Por trás das luzes brilhantes dos palcos, dos sorrisos nos videoclipes e da energia contagiante que embala milhões de corações, existe um ser humano. Um jovem de carne, osso, medos e feridas. Mas o tribunal implacável da internet parece ter esquecido disso. O linchamento virtual sofrido por João Gomes nos últimos dias, motivado pela cobrança violenta por um posicionamento político, não é um debate sobre democracia. É um retrato doloroso da nossa perda de humanidade.
O desabafo devastador de sua esposa, Ary Mirelle, foi um soco no estômago de quem ainda consegue sentir empatia. Ela não falou sobre partidos, votos ou ideologias. Ela falou sobre a vida do homem que ama. Falou sobre um quadro grave de depressão, sobre a dependência de antidepressivos fortes para conseguir levantar da cama e sobre o pânico de ver ameaças de morte direcionadas aos seus filhos bebês.
Quando o debate político exige como pedágio a sanidade mental de um pai e a segurança de duas crianças inocentes, nós falhamos miseravelmente como sociedade.
O
voto no Brasil é secreto por um motivo sagrado: proteger a liberdade do
cidadão. No entanto, as redes sociais transformaram o silêncio em crime. Julgam
o silêncio de João Gomes como omissão ou covardia, ignorando que, para ele,
esse silêncio é o último escudo que lhe resta para proteger sua própria vida
e a sua família. Optar por não se manifestar em um ambiente tomado pelo
ódio não é dar as costas ao povo; é um ato desesperado de autopreservação.
É
de uma injustiça cruel dizer que a neutralidade pública apaga o orgulho que
João tem de suas raízes. O amor dele pelo Nordeste, a dignidade que ele trouxe
para o seu povo e a alegria que sua voz espalha pelo país não cabem dentro de
uma urna eletrônica. A identidade de um artista não se resume a um lado em uma
disputa eleitoral.
Não podemos continuar consumindo a arte de alguém enquanto ajudamos a destruir sua alma. Nenhum engajamento, nenhum clique e nenhuma pauta política valem as lágrimas de uma mãe desesperada ou o colapso mental de um jovem talento.
Respeitar
João Gomes
— e tantos outros que escolheram o silêncio para sobreviver à tempestade — é
lembrar que, antes da política, vem a vida. Pelo bem da nossa própria
humanidade, é hora de parar. Deixem o João Gomes, sua esposa e seus filhos em
paz.


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