Dizem que o Carnaval é a maior ilusão da Terra porque dura apenas quatro dias. Mas quem diz isso certamente nunca ouviu o eco de uma multidão cantando de braços abertos sob o sol escaldante da Bahia, com a camisa encharcada de suor e a alma lavada de alegria. Há canções que não pertencem ao tempo; pertencem à memória afetiva de um país inteiro. E no centro dessa engrenagem de felicidade coletiva, estava ele.
Ernesto, que o Brasil inteiro aprendeu a chamar de Netinho com a intimidade de quem divide um refrigerante na beira da praia, foi mais do que a voz de uma geração. Ele foi o arquiteto de uma energia que se espalhava pelo asfalto como rastilho de pólvora. Quando ele subia no trio, a gravidade parecia perder a força. O chão da praça não era apenas um pedaço de cimento; tornava-se um mar que balançava sob as ordens daquele sorriso largo e daquela voz que parecia carregar o próprio verão dentro do peito.
Netinho cantando "Beijo na Boca" em seu primeiro DVD 2007
Nos anos 80, com a Banda Beijo, ele nos ensinou que a vida era festa, mas que também havia poesia e denúncia nos barracos da cidade. Depois, em carreira solo, provou que o axé podia cruzar oceanos, fazer Portugal dançar e transformar qualquer tarde de domingo em um território livre para a nostalgia.E, claro, houve Milla.
Quanta gente não amou, não chorou e não estendeu as mãos para o céu ao som daqueles acordes? Milla deixou de ser a musa de um compositor na Ilha de Itaparica para virar o sinônimo da juventude de todos nós. Era o amor de veraneio que nunca terminava, o farol apagado que iluminava a nossa própria história. Netinho tinha esse dom raro: ele pegava uma lembrança alheia e a transformava em patrimônio dos nossos corações.
Neste outubro de 2026, o circuito Barra-Ondina silenciou por um instante. O trio elétrico parou, e a brisa do mar de Salvador pareceu trazer um sopro de melancolia. A última batalha foi dura, silenciosa, travada longe dos holofotes e da explosão dos tambores que ele tanto amava. O guerreiro cansou. O linfoma levou o corpo, mas há coisas que nem a biologia explica e nem a despedida apaga.
Netinho não nos deixa apenas uma discografia. Ele deixa o cheiro de maresia, o gosto da pipoca do Carnaval, a lembrança da primeira micareta e a certeza de que, não importa quantos anos passem, sempre haverá um moinho abandonado em nossa mente onde a gente se encontra para ser feliz.
Descanse em paz, Netinho. O seu moinho continua girando. E a sua Milla, de um jeito ou de outro, vai sempre voltar para nos fazer dançar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário