quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Mestres que Tecem o Tempo

Dizem que a memória humana é um arquivo seletivo, mas a verdade é que ela é um quadro de giz onde as marcas mais profundas nunca se apagam por completo. Neste Dia do Professor, ao olhar para trás e contemplar a estrada que percorri, percebo que cada passo meu carrega a caligrafia, o tom de voz e a paciência de dezenas de educadores. Agradecer a todos os professores que passaram pela minha vida não é apenas um dever de gratidão; é reconhecer a própria arquitetura de quem eu me tornei.
A infância tem o cheiro do papel novo e o rito de passagem da chegada à escola. Lembro-me bem do orgulho de já cruzar aquela porta alfabetizada, mas o verdadeiro deslumbramento com o conhecimento ganhou forma pelas mãos de Eurides Rios. Ela foi a que considero minha primeira professora, com quem esudei da primeira a terceira séries. Com uma sensibilidade única, Dona Eurides soube acolher aquela menina que já sabia ler e transformar o que era apenas um aprendizado precoce em um amor genuíno pela descoberta, guiando-me com paciência e afeto nos meus primeiros passos escolares formais.
Profa. Dagmar, ladeada por mim e minha mãe.
Os anos avançaram e os desafios cresceram. Chegou o tempo do ginasial e, mais tarde, do magistério. Esse capítulo da minha vida teve como cenário o inesquecível Centro Educacional Nossa Senhora da Conceição, em Riachão do Jacuípe. Ali, uma figura imponente e profundamente sábia se destacava: a professora Dagmar de Miranda.
Professora Dagmar era um farol. Sob sua regência como diretora, a escola era um solo fértil de cidadania. E quando ela entrava em sala para dar suas aulas de Português, a mágica acontecia. A língua portuguesa não era um amontoado de regras áridas, mas uma partitura viva. O destino parecia traçado: cursei o magistério e ingressei na universidade no curso de Letras Vernáculas. Eu estava pronta para seguir os passos daquelas que me inspiravam.
No entanto, as linhas da vida são imprevisíveis. A estrada mudou de rumo e a paixão pelas palavras, despertada e lapidada por professora Dagmar, encontrou outro porto: tornei-me jornalista. Não passei a vida na frente de uma lousa, mas passei-a honrando o que aprendi com elas. O olhar atento, a busca pela verdade, o respeito à nossa língua e a paixão por contar histórias que alimentam o meu jornalismo nasceram ali, naquelas salas de aula de Riachão.
Hoje, já aposentanda mas ainda exercendo o jornalismo e observando o mundo com os olhos atentos que a própria escola me deu, é impossível não olhar para a realidade atual da educação com uma profunda pontada de tristeza e indignação. Testemunhamos, dia após dia, a cruel desvalorização da profissão por parte dos poderes públicos, que muitas vezes relegam o magistério ao esquecimento salarial e à falta de estrutura. Mais doloroso ainda é ver o esvaziamento do respeito dentro da própria comunidade escolar, onde tantos pais e alunos transferem para a sala de aula uma agressividade ou uma indiferença que fere a dignidade de quem está ali para ensinar.
Por isso, a minha homenagem hoje ganha um tom de reverência ainda maior. Enalteço, do fundo do coração, os professores que, mesmo diante desse cenário adverso, insistem em atuar com carinho, brio e responsabilidade. São verdadeiros heróis cotidianos que resistem ao descaso e à incompreensão para manter viva a chama do saber no peito de cada jovem.
Aos que me ensinaram a expandir meus horizontes, a buscar a precisão das palavras e a olhar para o mundo com espírito crítico: muito obrigado. Se hoje escrevo as notícias e ajudo a registrar a história, é porque mulheres como Eurides Rios e Dagmar de Miranda acenderam as primeiras luzes no meu caminho. Feliz Dia do Professor a todos aqueles que, na eternidade da nossa memória ou na trincheira das salas de aula de hoje, continuam a transformar giz em futuro.
Maura Sérgia

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