O caso envolvendo o influenciador Felca expõe, de forma crua, uma das patologias mais corrosivas do debate público atual: a total submissão da empatia à conveniência partidária. O episódio não é isolado, mas sim o sintoma de um modus operandi digital, onde a vulnerabilidade humana só tem valor se puder ser convertida em munição eleitoral.
Há cerca de um ano, o mesmo produtor de conteúdo alcançou projeção nacional, ao denunciar esquemas de exploração e sexualização infantil no ambiente digital, gerando um impacto que mobilizou o Congresso Nacional e impulsionou a aprovação de legislação de proteção aos menores na internet.
Felca foi celebrado de forma unânime, por cumprir o papel que a audiência esperava: o herói moral. Entretanto, após meses de afastamento e silêncio, a expectativa gerada em torno de seu retorno foi capturada por uma paranoia especulativa – sabe-se lá de onde isso saiu. Alimentou-se a ilusão de que o criador reapareceria com uma denúncia bombástica, capaz de desestabilizar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
O que se entregou, não foi um dossiê partidário, mas um relato doloroso, de uma hora de duração, no Dia Mundial de Combate ao Bullying. Felca expôs seu laudo de fobia social, o histórico de oito anos de agressões físicas graves e humilhações na escola, episódios de ideação suicida na adolescência e a dependência do álcool, como anestésico para suportar interações humanas simples, a ponto de sofrer acidentes físicos severos.
Em um ambiente sadio, um desabafo desse despertaria acolhimento. O que se viu, no entanto, foi uma onda, instantânea, de ressentimento e violência verbal. Felipe Neto – o menino foca – reagiu com irritação, disparando ofensas, como "Vai tomar no c*, né? Só isso mesmo. A uma altura dessas. Num fode". O ator José de Abreu – a mesma miséria humana de sempre – descredibilizou a dor alheia, apontando estratégia de marketing, ao afirmar: "Se bem conheço as redes sociais... Felca está fazendo bait. Aguardemos". A humorista Danúbia Lauro repetiu a agressão de Neto, e outros militantes digitais atacaram com frases como: "Foda-se sua fobia social, muda de psiquiatra", além de incitações ao autoextermínio.
A mensagem implícita dessas reações é inequívoca: a sua dor não importa se ela não servir ao meu propósito político. O ataque coordenado a um relato sobre saúde mental revela o caráter autoritário que tomou conta da militância virtual, criando um dever compulsório, em que a figura pública deixa de ter o direito à própria individualidade, à sua saúde ou ao seu luto.
A compaixão deixa de ser um valor humano universal e passa a ser uma concessão ideológica, com o direito ao respeito revogado imediatamente. Discursos que, publicamente, alardeiam a defesa da empatia, dos direitos humanos e do combate ao preconceito revelam-se capazes de disparar ataques chulos e sugerir o suicídio de um jovem adoecido.
Não há defesa da democracia possível onde não se preserva o respeito mínimo pela integridade existencial do outro. Transformar a dor, o trauma e a fobia social de alguém em objeto de escárnio apenas porque um vídeo não serviu como munição eleitoral é a prova cabal de uma degradação moral profunda. Quando a política exige a anulação da compaixão e o linchamento de quem expõe suas fraquezas, ela deixa de ser uma ferramenta de construção social para se tornar apenas uma máquina de moer pessoas. É desprezível.

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