sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A eleição da incerteza

A orgia de gastos do governo Lula, estimada em R$ 345 bilhões, expõe a incapacidade do sistema eleitoral de assegurar competição isonômicas entre os candidatos. Benefícios concentrados no final da campanha perdem a fronteira entre política pública e cálculo eleitoral. Lula alegou desconhecer a ausência de reajuste do Bolsa Família no seu governo, para anunciar aumento na reta final, em evidente oportunismo eleitoral. E cancelou as “taxas das blusinhas” e as bets que seu governo tinha aprovado, lesando a população.

A reeleição, introduzida por Fernando Henrique Cardoso, em 1997, foi o ovo da serpente, que continua cobrando seu preço. Uma reforma política precisa enfrentar essa distorção. Agora, a eleição entra nos últimos dias, com dois candidatos carregando seus passivos. Flávio Bolsonaro anunciou possíveis nomes para os ministérios da Saúde e da Economia, sinalizando  qualificação técnica. E promete intervenção mais firme na Segurança Pública, já que 50 milhões de brasileiros vivem sob controle das facções.

Lula, por sua vez, enfrenta o desgaste de um país que acumula problemas estruturais e a cobrança pelo projeto de poder sustentado pela corrupção que perpassa seus governos. A educação básica apresenta resultados trágicos nas avaliações internacionais. A dívida pública cresce. Os juros elevados – o maior do mundo – reduzem investimentos e dificultam a atividade empresarial, enquanto 83 milhões de brasileiros convivem com o endividamento e uma parcela expressiva da população depende de programas sociais.

Não há desenvolvimento quando o Estado consome parcela crescente dos recursos para financiar suas despesas. As famílias perdem capacidade de consumo e as empresas enfrentam dificuldades para sobreviver. Distribuir benefícios pode aliviar a pobreza; não substitui a criação de oportunidades.

Flávio, entretanto, não chega à disputa com cheque em branco. As referências a relações com Daniel Vorcaro, rachadinha, compra de mansão, são passivos da campanha. Promete um tesouraço nos gastos públicos, mas não explicou onde cortará, e como evitará que o ajuste recaia sobre os serviços essenciais. Prometer austeridade é fácil; difícil é apresentar a conta.

As pesquisas – raramente confiáveis, como mostrou o primeiro turno – explicam a incerteza. A pesquisa Datafolha mostrou 47% para Flávio e 46% para Lula, mantendo a disputa aberta. O debate da Globo, hoje, tem potencial para influenciar indecisos. A eleição deixou de ser apenas uma disputa entre projetos e se transformou, também, num teste de rejeições, medos e expectativas.

Lula oferece a experiência de quem já governou, mas é responsável por tudo que não resolveu. Flávio representa a possibilidade de mudança, mas ainda não demonstrou como converter promessas em administração. No domingo, o eleitor decidirá se mantém Lula com o que já é ou entrega a Flávio com a esperança do que pode ser.

Não se trata de escolher entre a certeza e o risco: os dois lados oferecem riscos distintos. O país precisa de responsabilidade fiscal sem abandono social; segurança sem arbitrariedade; crescimento com produtividade; e instituições que não sejam instrumentos de conveniência eleitoral. A esperança, nesta altura, não é que um candidato seja perfeito. É que o vencedor compreenda a dimensão do desastre que terá de enfrentar. Porque, depois de tanta promessa, tanta despesa e tanta disputa, o Brasil não pode continuar pagando caro para permanecer no mesmo.


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