A
reeleição, introduzida por Fernando Henrique Cardoso, em 1997, foi o ovo da
serpente, que continua cobrando seu preço. Uma reforma política precisa
enfrentar essa distorção. Agora, a eleição entra nos últimos dias, com dois
candidatos carregando seus passivos. Flávio Bolsonaro anunciou possíveis nomes
para os ministérios da Saúde e da Economia, sinalizando qualificação
técnica. E promete intervenção mais firme na Segurança Pública, já que 50
milhões de brasileiros vivem sob controle das facções.
Lula,
por sua vez, enfrenta o desgaste de um país que acumula problemas estruturais e
a cobrança pelo projeto de poder sustentado pela corrupção que perpassa seus
governos. A educação básica apresenta resultados trágicos nas avaliações
internacionais. A dívida pública cresce. Os juros elevados – o maior do mundo –
reduzem investimentos e dificultam a atividade empresarial, enquanto 83 milhões
de brasileiros convivem com o endividamento e uma parcela expressiva da
população depende de programas sociais.
Não
há desenvolvimento quando o Estado consome parcela crescente dos recursos para
financiar suas despesas. As famílias perdem capacidade de consumo e as empresas
enfrentam dificuldades para sobreviver. Distribuir benefícios pode aliviar a
pobreza; não substitui a criação de oportunidades.
Flávio,
entretanto, não chega à disputa com cheque em branco. As referências a relações
com Daniel Vorcaro, rachadinha, compra de mansão, são passivos da campanha.
Promete um tesouraço nos gastos públicos, mas não explicou onde cortará, e como
evitará que o ajuste recaia sobre os serviços essenciais. Prometer austeridade
é fácil; difícil é apresentar a conta.
As
pesquisas – raramente confiáveis, como mostrou o primeiro turno – explicam a
incerteza. A pesquisa Datafolha mostrou 47% para Flávio e 46% para Lula,
mantendo a disputa aberta. O debate da Globo, hoje, tem potencial para
influenciar indecisos. A eleição deixou de ser apenas uma disputa entre
projetos e se transformou, também, num teste de rejeições, medos e
expectativas.
Lula
oferece a experiência de quem já governou, mas é responsável por tudo que não
resolveu. Flávio representa a possibilidade de mudança, mas ainda não
demonstrou como converter promessas em administração. No domingo, o eleitor
decidirá se mantém Lula com o que já é ou entrega a Flávio com a esperança do
que pode ser.
Não
se trata de escolher entre a certeza e o risco: os dois lados oferecem riscos
distintos. O país precisa de responsabilidade fiscal sem abandono social;
segurança sem arbitrariedade; crescimento com produtividade; e instituições que
não sejam instrumentos de conveniência eleitoral. A esperança, nesta altura,
não é que um candidato seja perfeito. É que o vencedor compreenda a dimensão do
desastre que terá de enfrentar. Porque, depois de tanta promessa, tanta despesa
e tanta disputa, o Brasil não pode continuar pagando caro para permanecer no
mesmo.

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