terça-feira, 27 de outubro de 2026

Sete minutos para Flávio Bolsonaro

 

Pouco importa se temos simpatia ou horror a Flávio Bolsonaro. Ele carrega em sua biografia - ou folha corrida - uma série de investigações criminais ainda pendentes, como boa parte da classe política brasileira; mas o que é preciso discutir vai além dessa questão. A decisão da Polícia Federal de pedir os passaportes de Flávio Bolsonaro foi realizada sete minutos após o TSE confirmar a derrota nas urnas.

Essa agilidade confirma que a decisão estava tomada e foi submetida a uma escolha política de vitória ou derrota, o que não deveria ser levado em conta. O ministro Alexandre de Moraes atendeu ao pedido na mesma noite, sem sequer consultar a Procuradoria-Geral da República (PGR). A decisão teria sido tomada a partir de uma opinião do  irmão de Bolsonaro- e não dele- que está nos EUA, sugerindo que ele deveria sair do Brasil se derrotado.

Aliás, se a decisão de apreensão é justificada quando alguém é suspeito de envolvimento em crimes graves, os passaportes do próprio Alexandre de Moraes e de sua esposa, Viviane Barci, envolvidos até a medula no contrato de R$ 131 milhões do Banco Master - que inclui sociedade de cotas em aviões, jantares e uísque Macallan com Daniel Vorcaro -, já deveriam estar apreendidos, pois pairam sobre eles sérias suspeitas de condutas ilegais.

O pedido de asilo de Flávio Bolsonaro nos EUA cria a narrativa perfeita da perseguição política ao bolsonarismo. O aumento do prazo de votação que Cristiano Zanin - ex-advogado de Lula - determinou intempestivamente na eleição após o horário de fechamento foi absolutamente insignificante do ponto de vista de votos, mas  criou um ambiente suspeito. Além disso, reaquece a discussão sobre o impeachment do próprio Moraes e dificulta a reeleição de Davi Alcolumbre à presidência do Senado.

O ato, imediatamente após o encerramento da apuração, repercutiu de forma extremamente negativa internacionalmente, tanto para o governo Lula quanto para o STF. Especialmente porque, no debate, o presidente eleito ameaçou o candidato da oposição com a prisão após a eleição, dizendo que ele ficaria sem apoio, como se já soubesse antecipadamente da informação.

Além disso, surgem especulações cada vez mais fortes de que Moraes estava tentando criar cacife para barganhar a liberdade de Bolsonaro em um acordo para evitar seu próprio impeachment- sua natural obsessão. Desse modo, Flávio e a direita ficariam reféns de Moraes. Ademais, Flávio estaria liderando a bancada do Congresso, de maioria de direita, que poderia viabilizar o afastamento de Moraes e de outros juízes. Portanto, não tem a ver com "culpa no cartório"; é um jogo político do STF buscando uma tábua de salvação.

No momento em que se levanta uma suspeita dessa magnitude - bastando a mera suspeita -, já se escancara a imoralidade da presença do ministro no STF e a distorção de sua atuação, mesmo que Flávio venha a ser julgado culpado. Outros investigados, inclusive Lulinha, filho do presidente, que se mudou para a Espanha, não contaram com a mesma agilidade da PF e de Moraes. Então, se Moraes poderia pedir os passaportes, Flávio tinha razão de fugir porque a chance de ter um julgamento honesto e direito ao devido processo legal era zero.

A imagem do Brasil é jogada mais uma vez no lixo internacional por um ministro que já não possui credibilidade moral para julgar sequer uma disputa de palitinhos. Como dizia Cecília Meireles em seu Romanceiro da Inconfidência: "Pelos caminhos do mundo, nenhum destino se perde: há os grandes sonhos dos homens, e a surda força dos vermes."

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