No plano espiritual, o tempo não é medido por ponteiros, mas pela intensidade da saudade. A mesa do bar celeste, banhada por uma luz suave que lembrava os finais de tarde na Praça da Matriz, ganhou um brilho definitivo com a chegada recente de Zé Coió. Ele trazia o último sopro das resenhas terrenas.
Ao
avistar Carlinhos Falcão, Zé do Ó e Tonheiro, o abraço foi de quem apenas
continuava uma conversa interrompida no dia anterior. Estavam juntos os pilares
do eterno Clube dos 7.
— Rapaz, demorou, mas cheguei! — anunciou Zé Coió, puxando uma cadeira invisível, mas extremamente confortável.
—
Estávamos só te esperando para reabrir os trabalhos, Coió — sorriu Carlinhos
Falcão, com a elegância de sempre. — O plano mudou, mas a nossa essência é a
mesma. Precisamos reorganizar a nossa confraria e animar o céu.
O
grupo percebeu que a eternidade precisava de um pouco do calor feirense.
Faltavam pernas para completar a mesa e, principalmente, faltava festa. Foi de
Zé do Ó a ideia de expandir o território sentimental:
—
Para o grupo reatar a força, precisamos de gente de peso. Que tal convocarmos o
Pipiu Bahia? Aquele ali entende de alegria como ninguém.
A
proposta foi aceita por unanimidade com um brinde de copos cristalinos. Pipiu
Bahia, ao ser chamado, integrou-se ao grupo com o sorriso largo de quem
reencontra a própria identidade.
O
Clube dos 7, agora reconfigurado pela força do além, já tinha sua primeira
grande missão. Não seria uma reunião formal, mas um resgate histórico. Eles
fariam um baile carnavalesco.
—
Vai se chamar Baile do Caju de Ouro — decretou Tonheiro, os olhos brilhando com
as memórias das noites de gala. — Exatamente como nos áureos tempos do nosso
querido Clube de Campo Cajueiro.
Para
que o evento ganhasse a magnitude necessária, a divulgação precisava ser
impecável. Alguém sugeriu o nome que era grife na crônica social e no
jornalismo de Feira de Santana. Em poucos instantes, o jornalista Egberto Costa
aproximou-se da mesa, já com o bloquinho de notas espiritual em mãos e a
perspicácia de sempre.
—
Meus caros, um evento desse porte merece manchete de primeira página — disse
Egberto, ajeitando os óculos. — O 'Caju de Ouro' vai sacudir as estruturas do
plano superior. Já estou redigindo a nota. Vai ser o acontecimento do século...
ou melhor, da eternidade!
A
engrenagem da festa estava pronta, mas faltava a pulsação, a voz que arrastava
multidões pela Avenida Senhor dos Passos. Não houve dúvidas. O convite foi
direto para Jota Morbeck, o maior cantor de trio elétrico que Feira de Santana
já conheceu.
Jota
chegou soltando a voz, fazendo o som ecoar pelas nuvens com seu "Cometa
Halley", transformando o ambiente em um circuito eterno da Micareta. Com
ele no comando do som, as marchinhas e os antigos sucessos baianos ganhariam
uma energia que só os iluminados conseguem transmitir.
A
crônica daquela noite eterna não teve fim. Zé Coió, Carlinhos Falcão, Zé do Ó,
Tonheiro, Pipiu Bahia, Egberto Costa e Jota Morbeck provaram que a verdadeira
amizade e a cultura de uma terra não morrem; apenas mudam de endereço,
esperando o momento em que todos se reencontrarão no maior camarote do
universo.
O
Baile do Caju de Ouro já nasceria gigante, mas com as novas convocações, ele se
transformou no maior espetáculo que o plano espiritual já testemunhou. A
comissão organizadora sabia que a nostalgia feirense exigia o ápice da beleza e
do som.
Para
que a estética do Clube de Campo Cajueiro fosse recriada com perfeição, a
decoração precisava de mãos geniais. Foi assim que Charles Albert e André
assumiram o comando do salão celestial. A dupla transformou as nuvens em
monumentais alegorias de cetim, paetês e espelhos. O ambiente ganhou o brilho
exato das noites de gala, relembrando os grandes e luxuosos desfiles de
fantasias que paravam a Bahia. Cada detalhe decorativo parecia flutuar,
arrancando aplausos de Egberto Costa, que anotava tudo fascinado.
Se
o visual estava impecável, o palco virou um verdadeiro templo sagrado da
música. Jota Morbeck não estaria sozinho na linha de frente do trio elétrico
espiritual. Para acompanhá-lo, foram convocados os inventores da alegria
baiana: Dodô e Osmar, trazendo a guitarra baiana original, e Moraes Moreira,
com seu violão faiscante e poesia em forma de canto.
Quando
o som começou, a mistura foi avassaladora. Jota soltou a voz potente com a
energia das micaretas de Feira de Santana. Dodô e Osmar faziam os solos da
guitarra chorar de emoção, enquanto Moraes Moreira puxava o coro que balançava
o chão do céu. Mas, a festa precisava de figuras femininas para ficar completa,
foi aí que convidaram Elke Maravilha que se encarregara de convocar Sargentelli
para levar algumas mulatas.
Zé
Coió, Carlinhos Falcão, Zé do Ó, Tonheiro e Pipiu Bahia caíram na dança,
celebrando a certeza de que a Bahia, onde quer que esteja, é pura eternidade e
festa.

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