domingo, 18 de outubro de 2020

Histórias da Princesa

Hoje, prosseguindo a série de matérias sobre as histórias e estórias da Princesa do Sertão, vamos falar de um homem de muito conhecimento, mas simples no jeito de ser, não gostava de boçais e pernósticos. Sonhador, empreendedor. Excêntrico é o adjetivo que melhor se aplica ao Dr. José Sisnando de Lima.

Dr. Sisnando Lima. Médico, agricultor, político e lutador

Excêntrico é o adjetivo que melhor se aplica ao Dr. José Sisnando de Lima. Nascido em 9 de outubro de 1914, no Sítio Santa Rosa, no Crato (Ce), mudou-se para a Bahia com o sonho de estudar Medicina, e ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1932, formando-se em 1937. Depois, tornou-se especialista em neuropsiquiatria, e iniciou suas atividades profissionais em Santa Bárbara. Regressou à sua terra natal, em 1943, clinicando em várias cidades do Sul do estado até 1950, quando retornou a Santa Bárbara.

Sonhador, empreendedor, apaixonado pela agricultura, trouxe colonos japoneses para incrementar as técnicas agrícolas em sua propriedade e foi pioneiro na irrigação das suas culturas, o que o conduziu à presidência do Sindicato Rural de Feira de Santana. Foi também médico da Secretaria de Agricultura, supervisor estadual da Merenda Escolar e professor de Biologia. Eleito vereador de Feira de Santana em 1958, chegou à presidência da Câmara Municipal, e nesta condição, substituiu o então prefeito Arnold Silva por quatro meses, no ano de 1962. Dois anos depois dedicou-se inteiramente à psiquiatria, fundando duas clínicas particulares para doentes mentais. Ensinou biologia no Colégio Santanópolis, no Instituto de Educação Gastão Guimarães e no Educandário da Casa São José.

Diz-se (mas não há comprovação) de que a sua influência, sua aproximação com a política, se deu devido a um fato de que na década de 30, Sisnando participou de uma história curiosa: Defensor do governo de Juracy Magalhães, então interventor federal do Estado Novo na Bahia e também cearense, escutou que um grupo de estudantes de jornalismo iria escrever contra o governo. Sisnando então, disse aos estudantes que ao acabarem de escrever iria ler a notícia e caso não gostasse iria rasgá-la. Dito e feito. Os estudantes ficaram revoltados, partiram pra cima dele e não se deram bem. Um jornal da época publicou que um estudante de Medicina enfrentou vários estudantes de jornalismo em defesa do governo. Pouco depois Juracy se tornou amigo de Sisnando, que passou a integrar sua guarda pessoal.

“Um homem de coração valente não admite falsificação. Ele era um sujeito leal, honesto e verdadeiro com suas palavras, firme em seus passos e digno com suas ações. Sisnando era um homem “cabra da peste”, de atitudes, determinações e perseverança em busca dos seus objetivos, por isso chegou aonde chegou. O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. (Carlos Castanhede, sobre Sisnando Lima).

Estórias

         Há muitas “estórias acerca da força física, valentia e excentricidades de Dr. Sisnando Lima. Quem conta muitas delas é um dos seus melhores amigos, o pecuarista Bernardino (Pipiu)  Bahia, cujo pai, o pecuarista Carlito Bahia, também era muito amigo de Sisnando. Segundo ele, enquanto prefeito, Sisnando mandou prepostos para tirar umas frutas que estava em lugar inadequado na feira-livre. O dono das frutas disse que se o prefeito quisesse que fosse ele mesmo tirar. Sisnando não se fez de rogado, foi lá, pegou o feirante pela gola da camisa, e o atirou por cima do balcão da barraca para o meio da rua.

         Homem de muito conhecimento, mas simples no jeito de ser, não gostava de boçais e pernósticos. Certo dia, um sujeito sentido um odor de chifre queimado, disse: “Sinto um odor de matéria córnea em combustão”. Sisnando não gostou, mas calou. Passado algum tempo ele passou três dias escrevendo uma carta ao sujeito que começava assim: “Preclaro Esculápio”. Qual ícaro hodierno... e daí em diante era uma sucessão de palavras que poucas pessoas poderiam entender o significado, tal era a erudição.

         Sobre a sua força, dizem que ele colocava uma moeda entre os dedos indicador e médio, pressionava e a dobrava ao meio. Não satisfeito, pegava-a com os dedos polegar e indicador, e a dobrava novamente. Certa vez, na fazenda Paus Altos, do amigo Carlito Bahia, cujo nome certo era Carlos, ele sentado numa cadeira na varanda, pegou um vergalhão e começou a torcê-lo e terminou formando o nome “Carlos”. “Ele só se levantou um pouco da cadeira, para puxar a perna do R”, conta Pipiu Bahia. Há muito mais coisas curiosas sobre Sisnando Lima, como o fato dele ter “roubado” a sua esposa de um convento de freiras. “Quando ela chegou por aqui, vindo de Minas, foi com uma caravana de veículos, e numa camionete havia um cão dinamarquês enorme, chamado Rochedo. Ele gostava tanto desse cão, que colocou o nome de Roxana, na sua filha”, conta Pipiu Bahia. Sisnando também teve um filho, Hildebrando Kimura.

Lutador

Aluno e depois parceiro do grande capoeirista Mestre Bimba, Sisnando também era versado em artes marciais. Aprendeu Jiu-jitsu com Takeo Yano antes de chegar a Salvador. Com Takamatsu, 5º dan da Shotokan e 2º da Kodokan, praticou e estudou o karatê. Um dos seus colonos japoneses o iniciou em Kendô e Bojitsu. A sua equipe de japoneses, oriunda da TakuDai, incluía Saito Masahiro, 2º dan pela Kodokan e 1º dan pela Shotokan, que ensinou Judô e Karatê no Spartan Gym de Dr. Geraldo Blandy Motta e no Grêmio da Escola de Politécnica.

 “A diferença fundamental entre o homem comum e o guerreiro, é que o guerreiro encara tudo como desafio, enquanto o homem comum encara tudo como bênção ou maldição”. (Fernando Pessoa)

Informações do site da Associação de Mestres de Capoeira do Recôncavo Baiano

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