sábado, 29 de janeiro de 2022

 

Guerreiro dos charutos

 Dia desses, meu charuto indagou minha origem Tinha-me por baiano, por viver na Boa Terra há mais de meio século. Ao dizer-lhe haver nascido no Rio Grande do Sul, o puro amigo, curioso, quis saber se nobre ou plebeu.

 Confidenciei-lhe, fatos narrados por bocas velhas. Bocas caladas há muito, cujos falares em meio à enfumaçada névoa do charuto, ainda flutuam na solidão de meu evocativo recolhimento.

 A guerra, o gado, o peixe e o desejo de dias melhores explicam a história dos meus e, por extensão, a minha.

 Meu avô paterno, de Trás-os-Montes, onde habitava a riqueza da pobreza portuguesa, migrou para o Brasil nos anos mil e oitocentos e segundo império. Era artesão nas coisas do couro - correeiro - e buscou a região pecuária do interior paulista, onde nasceu meu pai em 1907. Pouco tempo após, partiu com armas e bagagens para o estado gaúcho por lá ser farta a matéria prima de seu ofício. Fixou-se pelas bandas da cidade de Pelotas, polo de grandes charqueadas, leia-se couro em abundância. Pelo prisma paterno portanto, minha origem está no gado e na aspiração de melhores dias.

 Do lado materno, meu tataravô, baiano e plebeu, vivia nas áridas terras da região sertaneja do rio Vaza-Barris e foi arregimentado para a Guerra do Paraguai: teve a sorte de, após, sair com vida. Na viagem de retorno, optou por desembar em costas catarinenses. Começou vida nova, em área onde ora é Garopaba.

 Desconheço se deixou amores e parentes na Bahia: esqueceu os seus e por eles, é provável, foi dado por morto. À época, era livre a pesca predatória das baleias-franca. Dedicou-se à pesca das ditas, constituiu família e legou a profissão a seus filhos e aos filhos dos seus filhos.

 Minha avó, neta dele, quando menina, enquanto brincava no promontório à borda da enseada conhecida por “Vigia”, espreitava a chegada das baleias, momento no qual corria morro abaixo para avisar ao pessoal da pesca. Lá mesmo, em Garopaba, teve uma única filha nos anos vinte do século que já se foi - minha mãe.

 Os catarinenses pescadores costumavam migrar para a cidade de Rio Grande, para “deitarem suas redes” na época da pesca de tainhas: meus avós para lá foram. Vê-se assim, pelo lado materno minha origem está na guerra e na pesca.

 Tudo pronto, portanto, para o nascimento deste gaúcho ocasional. O qual, segundo a tradição, herdeiro das vocações de seus avós, ao aspirar melhores dias e labutar como um boi, acabou na Bahia e converteu-se em guerreiro dos charutos e escriba-pescador de ilusões.

 Meu charuto, satisfeito com as explicações, garantiu-me quando não houverem mais marços para mim e a contagem do tempo der-se pela minha ausência, alguém tomará conhecimento da presente conversa.

 

Hugo A. de Bittencourt Carvalho, economista, cronista, ex-diretor das fábricas de charutos Menendez & Amerino, Suerdieck e Pimentel, vive em São Gonçalo dos Campos – BA.

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