domingo, 10 de março de 2024

 


* A alma das mulheres * 

 

Quisera eu, um dia, entender as mulheres. 

Malgrado ininterruptos sessenta anos de convivência com o sexo oposto, temperamentos contrários ou análogos, distintas histórias de vida, genéticas de diversas ascendências, sinto-me ao ensino fundamental da vida a dois.

Ela e eu, eu e ela. 

A alma das mulheres é contraditória.

Pensam com o coração; agem pela razão; costumam vencer pelo amor, corpóreo ou sentimental seja. Nós, homens - insensíveis aventureiros de fugazes amores uns, outros nem tanto -, precisamos ter sido ungidos pelo dom da velhice para entender que elas, as mulheres de nossas vidas sem as quais não (sobre) vivemos, têm o dom de transitar por incontáveis emoções em um só dia e de transmiti-las através da singeleza de um olhar. 

Sentimentalmente perfeccionistas, dão as costas ou encontram justificativas para os desvios de conduta daqueles a quem amam.

Tanto atesto, testemunha por anos muitos haver vivido no desequilibrado compasso dos que, cegos, fazem do arame distendido o tablado do palco do espetáculo de suas vidas. 

A cegueira delas é diversa.

Hospedam no ventre outras vidas e, depois de dar à luz, cegam ante a angelical beleza dos filhos gerados. Tais filhos somos nós, não mais reconhecidos nas alvas vestes da ida à pia batismal. 

Quando nos ensinavam a voar, prendíamo-nos às suas saias.

Depois, pássaros crescidos, asas ao vento, deixamos para elas o sentimento de perder algo que, desde o início, sabiam não lhes pertencer. 

Mulheres são seres especiais.

Adornam-se, ainda que seus parceiros não se apercebam de seus lábios no tom do batom da moda, das unhas aparadas e coloridas com esmero nem do perfume que incita afetuoso abraço e o desejo de segredar palavras ternas, mil tons, mil vestes, mil adereços, iscas que, na maior parte das vezes, despercebidas passam por aqueles a quem se destinam. 

Tal alguém tem nome: homens.

O desencanto delas ao não serem correspondidas, apesar de tanto, convertem-nas em feiticeiras a transformar em luz e sorrisos as dores na alma. Só para ninguém notar. 

De quebra, são fortaleza para dar ombro a quem, como eu, em dia que não vai longe, necessitei dizer de meus dissabores. 

Sentados ao leito, voz embargada, li para ela texto a respeito de flores brancas e amarelas - a morte de um de nossos felinos de estimação.

 Seus olhos marejaram em silêncio cúmplice. 

Foi quando, apesar da compreensível tristeza, despontou em mim a ponta de uma ponte de felicidade. 

Dei-me conta estar começando a entender a alma das mulheres.



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