sexta-feira, 22 de março de 2024

Artista X público

         

 Nem sempre a relação artista X público é pacífica e harmoniosa. Às vezes surgem desentendimentos, alguns até com consequências mais sérias. Lá pelos anos sessenta Roberto Carlos ainda não era esse Roberto Carlos todo, dos dias atuais. Era apenas um cantor iniciando uma carreira, com relativo sucesso. Já se ouvia pessoas cantarolando pelas ruas, nos bares ou no trabalho trechos de canções como negro Gato, parei na contramão, eu quero que vá tudo pro inferno...

         Roberto Carlos sempre cuidou de ter um bom relacionamento com o seu público. Porém, era meio ranzinza com relação ao público cantando junto com ele. E ele tinha razão. Afinal ele é o cantor, o artista, que está sendo pago para mostrar a sua arte. O público cantando uníssono causa distorções na apresentação do artista.  Por isso não admitia ninguém cantando na plateia.

         Certa vez ele foi cantar no Clube de Campo Cajueiro, em Feira de Santana. A boate ainda era pequena e muito aconchegante. Quando Roberto Carlos já estava cantando, algumas pessoas ensaiaram cantar com ele. Ele parou o show e pediu que não cantassem. Continuou a cantar e um rapaz na plateia insistiu em continuar cantando e até dançando junto a mesa. Ele novamente parou e falou de forma um tanto ríspida com o rapaz. A diretoria do clube interveio e tudo se acalmou. Porém, ao final da festa, alguns playboys que tomaram as dores do rapaz, se reuniram para pegar o artista na saída do clube, o que exigiu da diretoria uma pequena operação sigilosa para tirá-lo do clube às escondidas.

         Naquela época, assim como muitos outros fãs, entendi como “frescura” de Roberto por ter implicado com o rapaz. Hoje, passados tantos anos, vejo que ele estava certo. Além do fato de que o cantor se exercita muito decorando letras e acordes para se apresentar em público, é ele quem está sendo pago para mostrar a sua arte. O público cantando junto atrapalha. Pude constatar isso várias vezes durante apresentações de outros artistas.

         Com a onda sertaneja teve início uma hera de shows com o público cantando junto com os artistas e não eram apenas poucas pessoas, num recinto pequeno, eram multidões. Por algum tempo isso deu certo. Até que os próprios cantores começassem a cansar e entender que sua arte estava sendo desvalorizada. Afinal, é o artista quem canta para o público e não o publico que canta para o artista. Eu não tinha percebido ainda que alguns cantores já estão tomando providências para evitar multidões de cantores.

         Há alguns dias ouvindo uma gravação da cantora Joana cantando a música Recado, notei que ela, com muita habilidade, começou a tirar de tempo o público de cantores. Ela começou a música e quando o público ameaçou vir junto ela mudou o tempo da música e o tom e começou a desfiar uma grande variedade de tons e tempos de voz para cantar, fazendo com que o público recuasse da “ameaça” de cantar junto com ela. Deu certo.

         Depois disso, fui ouvir outras canções gravadas por outros artistas em diferentes shows e percebi que muitos estão usando essa técnica para confundir o público cantor, que, na minha opinião, é um pé no saco. Já há muito tempo eu havia deixado de comprar discos gravados ao vivo. Eu pago para ouvir os cantores, não o público. Eu gostava muito de ir atrás do trio elétrico gritando junto com os artistas as músicas do carnaval baiano, mas, quando se tratava de comprar um disco para ouvir um artista, eu queria ouvir a sua voz. Eu creio que, como eu, existe muita gente.

         Quem quiser demonstrar seus “dons artísticos”, que vá cantar no chuveiro. Meu ouvido não é pinico!

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